segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Desamorados, de Compulsão Diária - Beatriz M. Moura

Ela faz um pedido e ele lê "perdido"
Ele permanece arredio
Ela perde a beleza, a paz e s´arret insipide
Ele não cede

Ela pede: refaz o caminho?
Ele transgride, percebe a raça do cio
Ela disfarça, dança, pisa na ânsia e caça o carinho
Ele Clarice Lispector, Henry James, Ray Charles e diz que não pode

Ela Freud, Dante, Zé Maria, Dottie Parker e Chico Buarque, quase morde
Os dois James Joyce
Ela Molly Bloom fiel* under the Moorish wall sem beijo
Ele desvia arrogante -Leopoldo sem sal nem desejo

Ela dói
Ele escolhe o destino
Ela sai de fininho, sacode a melancolia e cospe a pieguice
Ele se arrepende

Ela arde
Cada um cada qual.
E o dois?
Depende!

* Molly Bloom, personagem de Ulisses, de James Joyce, era infiel.

6 comentários:

  1. Só para constar, Bea: ando meio desligado; eu nem sinto meus pés no chão. Olho e não vejo nada e eu só penso se a poesia ainda me quer...

    Quando eu descobrir (espero que ainda essa semana), comento.

    Até domingo, se não descobrir nada, faço um esforço para pôr meus trabalhos em dia.

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  2. O poema dessa semana é, para mim, uma oposição íntima entre um "ele" e uma "ela", que serve para confirmar a opinião geral de que os sexos não são diferentes apenas na exterioridade. É criativo no mesmo nível de alguns poemas que já li alhures, de tomar as partes pelo todo, e entenda o leitor que "Joyce" e "Chico Buarque" são idéias e conceitos, não pessoas. Eu entendo. Não há uma metáfora evidente, além do que afirmei no início; e por ser do senso comum, quase não é metáfora: é uma constatação. No plano "material" do poema, é dificultoso, porque é empregada uma linguagem críptica (vou tentar evitar o uso da expressão da moda: "hermética"), que faz muito bem a função de cifrar uma mensagem bem direta.

    E parabéns, Bea, pela estréia nos poemas da semana.

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  3. criatividade e metáfora: excelente! a autora trabalha a impossiblidade de uma relação real entre homem e mulher de forma toda metafórica, apelando para referências literárias - masculinas e femininas, diga-se de passagem - que viram aqui substantivos comuns, mais do que nomes... eu, que adoro uma minúscula, aboliria todas as maiúsculas nesta poesia...

    linguagem: bem montado, o poema traz rimas imprevistas, fora do final dos versos, de um modo muito interessante - há versos livres, mas há rimas que vão fazendo ecos, ressonâncias... de certo modo, cada um fala consigo mesmo - homem e mulher - e as palavras mimetizam essa idéia... gosto de misturas de línguas, mas há aqui um probleminha: presente do verbo s'arreter: elle s'arrête, com circunflexo e "e" no final...

    este é o primeiro poema que leio seu, bea... gostei muito, quero ver mais!

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  4. diferente
    fiquei relendo
    embasbaquei: que diz esta pequena assim de um jeito metaforisado nas leituras de um e do utro? bem, nada diz que não seja o eterno conflito
    mas diz isso em poema e num versejar que não rimando, cnata e não sendo directo(nem pouco mais ou menos) toca na gente assim como água muito límpida debaixo da enchente de lama e detritos
    acho que não vou conseguir dizer isto seguindo os trâmites, mas me parece muuito criativo na forma de dizer e nos recursos que metamorfizam, de um verso a outro, a relação (im)possível de um modo em que não denoto defeito no modo de escrita
    gostei mesmo muito, Bea!

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  5. Vejamos, temos aqui um poema intertextual, quase pós-modernista.
    Boa parte das referência só fazem sentido, só afetam o leitor se ele possuir as mesmas leituras da poetisa. É claro que, em tempos de google, basta dar uma procurada na internet, mas pressupondo que o leitor é, via de regra, preguiçoso, o poema só se constrói em sua plenitude caso cumprida esta primeira exigência.
    Por isto mesmo, sinto que a nota "Molly Bloom, personagem de Ulisses, de James Joyce, era infiel." está sobrando, mais do que isto, é totalmente indesejável, pois quebra o ritmo da leitura e suscita outros tipos de questões, como: por que não traduzir o trecho em francês? Ou por que não traduzir "sob a muralha mourisca"? Ou, pior ainda, por que "Leopold" foi traduzido para "Leopoldo"?

    Quer dizer, faltou um pouco coerência nesta postura assumida.

    Outro aspecto que me incomodou foi a intercalação, do começo ao fim, de ela-ele. É óbvio que isto possui a finalidade de apresentar os dois pólos desta dicotomia, mas a letra "E", em maíscula, possui linhas duras e que, nesta sucessão, confere uma rigidez visual. Perceba como o "O", no meio, alivia este peso. Uma alternativa seria a dada pela Marcia, em escrever tudo em minúsculas, ou, que penso ser a melhor, encontrar maneiras mais criativas para apresentar os dois lados, sem precisar começar todos os versos com o pronome.

    No entanto, excetuando estas ressalvas, é um poema interessante. Este caráter críptico (para parafrasear o Volmar) até me lembrou alguns poemas de maturidade do Borges, com seu conhecimento enciclopédico deslindava por inúmeras referências que só provavam a nossa ignorância. :D

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  6. Pessoal, desculpem a ausência, mas eu mudei de estado ..vim morar na Bahia e só agora pósso comentar os comentparios.
    Bem , este poema-prosa-poema é antigo. Mas eu gosto dele. Posso retrabalhar e é claro que agradeço os elogios, as leituras generosas do V., Fátima, Márcia.

    As observações do Henry são fundamentais e, com certeza, vou retrabalhar o poema a partoir delas. Excelente leitura, Henry. Poxa! Um privilégio ter um leitor assim.
    Tudo,tudo a ver.

    Volto pra vc com o poema retrabalhado..só por exercício. Aí a gente vê como ficou. Posto no compulsão, va bene?
    Beijos gerais

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